Refugiados que vivem na BA e contam com solidariedade pedem ajuda para voltar para Cuba após dificuldades: 'Estou com medo'

Por Redação Rede Ilha FM com informações do G1 Bahia em 25/09/2020 às 06:13:29
Patrícia Girbau contou ao G1 que situação se agravou após a dona da casa onde ela mora de favor com a família pedir para que eles deixem o local. Com desafios da pandemia e a ajuda de uma rede de apoio, Patrícia e a família começaram a produzir quitutes.

Arquivo Pessoal

Os refugiados cubanos que vivem na Bahia, e que contam com a solidariedade e o dinheiro arrecadado com a venda de pão delícia para tocar a vida, pedem ajuda para voltar para Cuba após as dificuldades financeiras para se manterem no estado.

Em entrevista ao G1, a família contou que a situação se agravou depois que a dona da casa onde eles moram de favor (sem pagar aluguel) pediu para que eles deixem o local. A dona do imóvel também está com dificuldades financeiras por causa da pandemia da Covid-19, e vai tentar alugar a casa para conseguir um dinheiro extra.

"Não tenho como pagar aluguel e minha via complicou muito. Estou com medo. O dinheiro do pãozinho só dá para comer. Nós precisamos de um emprego. Eu não tenho ninguém aqui. O jeito é voltar para casa de minha mãe, é a única seguridade que tenho", disse Patrícia Girbau.

Em busca de uma vida melhor, o casal decidiu deixar Cuba clandestinamente e imigrou para o Brasil, numa viagem que durou quase um mês e levou praticamente a reserva de US$ 7 mil resultante da venda da casa própria, pouco antes da partida.

Patrícia Girbau, 32 anos, Fernando Martinez, 38 anos, e o filho mais novo do casal, Daniel, de 8, estão em Salvador desde novembro do ano passado. Eles moram em um apartamento no bairro da Saúde, Centro da capital. A dona do imóvel não cobra aluguel para eles, apenas a conta de água e luz.

A expectativa era que o casal conseguisse, com o passar do tempo, trazer também Maria Fernanda, de 10 anos, a filha mais velha que ficou com os avós maternos em Cuba.

Assim que chegaram ao Brasil, eles deram entrada na papelada para obter a condição de refugiados — só assim, podem solicitar a vinda da filha. O processo ainda está em andamento e eles aguardam o resultado. No entanto, com as dificuldades trazidas pela pandemia, os planos mudaram. Agora, a família só pensa em voltar para Cuba.

Segundo Patrícia, o barulho feito pela batedeira usada por ela para fazer os pães que vende para sobreviver tem incomodado vizinhos, o que resultou no pedido da dona da casa onde moram para que deixem o local.

Apesar disso, a família vai poder ficar no imóvel até conseguir voltar para casa. "O morador do prédio não gosta do barulho da batedeira para fazer o pão. A gente consegue sobreviver, pagar água e luz, com o dinheiro que vem dos pães. Por causa da queixa desse vizinho, a proprietária da casa pediu para gente sair. Ela pediu para que a gente faça alguma coisa", falou.

Patrícia explica que sem dinheiro e trabalho, eles não conseguem se manter em Salvador. E, mesmo se vendesse lanche em outro local, não conseguiria pagar aluguel, porque o dinheiro arrecadado como o pão só é suficiente para contas simples.

Por causa da situação, ela fez uma publicação nas redes sociais nesta quinta-feira (24) para falar sobre o problema. Na postagem, ela dividiu com o seguidores as dificuldades que ela e a família enfrentam e pediu ajuda financeira. [veja acima]

Ela explicou ao G1 que o dinheiro que precisam é basicamente para a compra das passagens. Quem quiser ajuda a família pode acessar entrar em contato pelo Instagram de Patrícia.

"A gente vai ter que voltar. A gente não tem previsão de nada. Mas a gente tenta voltar em novembro. A gente começou a pesquisar, mas a gente ainda não sabe os valores. Os preços variam muito. Mas a gente acha que precisa de uns R$10, mas não sei muito", completou. .

A viagem para o Brasil

Refugiados cubanos contam com solidariedade e iguaria baiana para sobreviver na pandemia.

Arquivo Pessoal

A vontade de deixar Cuba era antiga, mas o casal não tinha condições financeiras para fazer a viagem e, por isso, o sonho foi adiado por alguns anos. Moradores da cidade de Camaguey, região central da ilha e capital da província de mesmo nome, os dois tem diploma universitário. Patrícia é formada em informática e Fernando, em psicologia.

Eles contam, no entanto, que a renda do casal mal dava para o orçamento de uma semana. Para complementar, Patrícia ainda trabalhava como uma espécie de administradora de uma lanchonete. Somados os dois empregos eram jornadas de 12 a 15 horas diárias, para ganhar 75 pesos cubanos (CUP), o equivalente a, mais ao menos, três dólares por dia. Ela lembra que com o que ganhava conseguia ao menos comer, mas nem sempre.

A falta de perspectivas fez com que eles decidissem, em 2019, vender o único bem que tinham: a casa em que moravam, herdada por Fernando após o falecimento da mãe, vítima de um câncer.

"O dinheiro não foi o suficiente para pagar a passagem dos quatro, eu, minha esposa e nossos dois filhos. A minha filha, de dez anos, precisou ficar em Cuba com os avós maternos. O que pensávamos era chegar no Brasil, trabalhar e poder trazê-la para cá. Mas já tem nove meses que estamos aqui e ainda não conseguimos isso", lamenta Fernando.

Foram precisos exatos e exaustivos 21 dias para que a família conseguisse superar os mais de cinco mil e setecentos quilômetros de distância que separam Camaguey, em Cuba, de Salvador.

A decisão foi uma indicação familiar. Um primo de Fernando imigrou para Salvador meses antes e, nas conversas, propagandeava que rapidamente conseguiu alcançar uma vida confortável, com casa e emprego bem remunerado. Buscando objetivos semelhantes, o casal partiu com o filho até a Guiana, no dia 7 de setembro de 2019.

De lá, foi feita a travessia da fronteira com o Brasil. Já dentro do país, a primeira capital na qual pisaram foi Boa Vista, em Roraima. Até chegar a Salvador, foram necessários mais voos e horas em ônibus por todo tipo de estrada. Em 24 de novembro do ano passado, o périplo finalmente terminou com a chegada ao destino - marcada por decepção.

"Quando chegamos na casa de meu primo nos demos conta de que tudo era mentira. Tudo que ele falava que estava bem, não era verdade. Ele morava em uma situação ruim, não tinha condição nem de morarmos com ele temporariamente", relembra Fernando.

Decepcionados, com o dinheiro acabando e sofrendo com a separação da filha, a família quase desistiu de fixar residência no Brasil e pensou em retornar imediatamente ao país natal. A vontade de melhorar as condições de vida, no entanto, falou mais alto. Patrícia e Fernando decidiram persistir e começaram a busca por uma moradia. Foi quando as coisas começaram a mudar.

Refugiados cubanos contam com solidariedade e iguaria baiana para sobreviver na pandemia.

Arquivo Pessoal

A dona de um dos imóveis que eles tentaram alugar ficou comovida com a história da família de refugiados. Dona Cica, como é chamada pelos dois, decidiu acolher a família sem fazer muitas perguntas.

Mesmo com a resistência do casal, ela não tem cobrado o valor do aluguel, cabendo aos estrangeiros às despesas da casa. A expectativa inicial era de que, em no máximo três meses, eles conseguissem encontrar um emprego e pudessem assumir definitivamente as contas. Muitos currículos foram entregues. Patrícia chegou a fazer entrevistas, mas não foi contratada.

Uma das soluções foi vender bolos, café e leite pelas ruas de Salvador. Com a chegada da pandemia e o consequente fechamento do comércio, a partir de março, a situação piorou. Foi neste momento que a rede de apoio iniciada por dona Cica cresceu, ganhando novos adeptos.

Tocada pela penúria enfrentada pelos cubanos, a vizinha Luísa Caetano organizou uma vaquinha na internet para arrecadar dinheiro para a família. Eles conseguiram juntar R$ 3,5 mil, que seriam usados inicialmente para bancar a vinda de Maria Fernanda e o reencontro da família. Mas eles descobriram que teriam de aguardar o final do processo burocrático do Conare.

"Então, decidi que a melhor opção seria usar o dinheiro para profissionalizá-los de alguma forma", relata Luísa. "E o que mais estamos consumindo em meio a essa pandemia é comida. Entrei em contato com uma famosa dona de uma escola de gastronomia aqui em Salvador, contei a história deles e ela se prontificou a ajudar Patrícia."

Confira mais informações do estado no G1 Bahia.

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